O caminho do auto-conhecimento é infinito e imprevisível. Transitando entre psicanálise, filosofia, religiosidade, espiritualidade e curiosidade pura, me deparei com o conceito de multipotencial (do inglês, multipotentialite). Me reconheci em diversos aspectos, o que não quer dizer nada de fantástico, apenas a dificuldade, como ocorre com muitos de nós, em se encaixar em um padrão profissional básico da modernidade, relacionado ao positivismo comtiano e à experiência da indústria capitalista fordista. A modernidade trouxe recompensas crescentes à especialização. Organizou o conhecimento em caixas fechadas para si e combativas a outras caixas, haja vista aos feudos pseudo-soberanos da estrutura departamental das Universidades. Prestigiou especialistas e institui a narrativa do “encontre a sua vocação, a sua paixão, e seja o melhor”.
Em outros momentos históricos, esse não foi o padrão de organização do conhecimento e avanço científico. Em momentos de grande avanço do conhecimento em sociedades ocidentais houve incentivos claros ao generalismo, à uma visão holística/sistêmica de mundo. Vertentes mais atuais do pensamento complexo têm seguido por esse caminho sistêmico, mas dizem muito pouco sobre comportamento individual e inserção sócio-profissional. Igualmente, discussões contemporâneas sobre multipotencialidade guiam debates sobre recursos humanos e carreiras, sem contudo problematizar a falta de interdisciplinaridade na formação acadêmica dos futuros profissionais. Faz toda a diferença lidarmos com a formação e atuação de, além de especialistas, profissionais de perfil multipotencial, em sistema de ensino-aprendizagem e prática interdisciplinar.
Importa ressaltar que multipotencial não é sinônimo de polímata. Polímatas são aqueles multipotenciais que conseguiram realizar toda a sua potencialidade e se tornaram efetivamente capacitados e destacados em diferentes áreas do conhecimento. São alguns dos grandes gênios da história do conhecimento. O termo multipotencial retrata uma realidade dos outros 99% de multipotenciais que não necessariamente revolucionarão a filosofia, ciência e tecnologia humana, como fizeram os polímatas Aristóteles, Galileu, Newton, Thomas Edison, Leonardo Da Vinci, entre outros.
No contexto atual, multipotencial refere a pessoas que simplesmente não suportam a ideia ou a rotina da especialização. Não por falta de dedicação ou capacidade para tanto, mas pela inadequação à repetição temática combinada ao excesso de criatividade, desejo pelo novo e variedade de talentos. É algo bem característico de millennials e gerações mais recentes que tiveram oportunidade de escolher seu caminho profissional com amplas oportunidades, ao contrário da de seus pais. Entretanto, o que parece ser uma dádiva, geralmente se torna um transtorno comportamental e mental. O desafio é que ser multipotencial não necessariamente produz um caminho de sucesso, quem dirá o surgimento de um polímata. Geralmente resulta em desafios de inserção profissional e socialização.
Pessoas de círculos fechados tendem a ver multipotenciais como estranhos, e eles se sentem não se encaixar nos padrões comportamentais de áreas especificas. O que você faria se visse o seu neurologista tocando guitarra na banda de rock de um pub na madrugada de sexta-feira? Como reagiria se a professora de matemática do seu filho fosse também dançarina do ventre profissional? E se o reitor da sua universidade tocasse tambor em um terreiro de candomblé nas quartas e sextas? Talvez o estranhamento ocorresse apenas inicialmente para a maioria dos que os vêem de fora.
Mas o maior desafio sempre é a aceitação dos pares. Eles geralmente marginalizam o multipotencial como um deslocado, aquele que não pertence efetivamente ao grupo, ao bando. Não cumpriu com o pacto de exclusividade da sociedade moderna industrializada. Também, pois o multipotencial geralmente não se compromete com todas as convenções comportamentais e estéticas de uma determinada profissão. Multipotenciais tendem a não aceitar os abusos que aquela profissão impõe nem os vícios que protegem aqueles profissionais em seu corporativismo estéril e improdutivo. Assim, muitas vezes são vistos como uma ameaça ao status quo. A fonte de inovação caótica, destrutiva para o estabelecido e construtiva do incerto.
Outro problema é a dificuldade de lidar com a rotina e as demandas de cada atividade. Nunca fomos treinados para sermos multipotenciais. Sempre fomos ensinados a seguir o caminho da vocação e se especializar cada vez mais. Não nos ensinam a gerir nosso tempo em atividades multiplas, a gerir diferentes caminhos profissionais, a viver e aceitar rotinas caóticas em constante transformação. Não nos mostram o valor e a viabilidade de sermos camaleões convictos, não pela necessidade de se desfigurar do predador iminente, mas pelo gosto de experimentar e viver novas cores.
Talvez multipotenciais não sejam somente as pessoas em si, mas o papel social, a estrutura social que pode ou não se institucionalizar em períodos diferentes. Muitas pessoas podem ser claramente multipotenciais, outras especialistas, e um terceiro grupo nem ao certo sabe dizer, por não ter tido sequer a possibilidade de refletir ou experimentar, dados os constrangimentos estruturais para seguir um ou outro caminho. Fato é que pessoas em sociedade não precisariam ser somente uma coisa ou outra, mas manter a liberdade de experimentação em diferentes situações e momentos.





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