A cada ano que passa, a lenta e difícil redução dos altos níveis de imaturidade, arrogância e narcisismo que a masculinidade me garantiu faz-me perceber o quanto o nosso mundo é inevitavelmente feito de contradições contingentes. Forças que se contradizem pela simples dinâmica dialética, sem sentido ou justificativa própria ou qualquer justificativa plausível. A contradição recorrente produz e estimula cooperação e formação de identidades, mas sem conflito externo e ameaças iminentes tal cooperação dificilmente se institui no longo prazo. Em contrapartida, a cooperação de uns produz ameaças a outros e assim as contradições se multiplicam, levando muitas vezes ao extremo da violência física direta. Se essa dinâmica complexa produzirá ou não sínteses e acordos mais sustentáveis, é uma questão de contexto, pois nada está garantido. As sínteses, em si, produzirão contestações em escala e amplitude proporcional.
Temos visto isso no momento contemporâneo com o surgimento de movimentos de (re)afirmação de masculinidades que sempre foram dominantes e opressoras. Com a necessária, árdua e incompleta luta pela conquista de direitos por movimentos feministas, LGBTQIA+, etnorraciais e outros grupos tradicionalmente oprimidos, reações absurdas surgem frente a perda de espaços. É o caso dos machos dominantes, geralmente brancos e de origem privilegiada, que reagem à perda da liberdade e poder absolutos e clamam pela disseminação do movimento Red Pill.
Se tomarmos o marco da crítica sobre o conceito de masculinidade proposta pela cientista social australiana Raewyn Connell, há pelo menos 30 anos os debates sobre a toxicidade da masculinidade hegemônica se desenvolvem de maneira muito produtiva. Mulheres, comunidades LGBTQIA+ e grupos de homens anti-machistas contribuíram e deram suporte ao às pautas feministas, sobretudo para orientar e apoiar atitudes e comportamentos de homens, distintos da masculinadade tóxica. Esta é historicamente marcada pela a exaltação da força, da competitividade, do abandono parental, da frieza, da violência física, verbal e simbólica, da infidelidade, da agressividade, da intimidação, da discriminação, etc. Cada vez mais vimos surgir debates importantes sobre a relevância da paternidade consciente e engajada, a postura respeitosa e íntegra no espaço público e privado, o respeito e proteção de grupos vulneráveis e atitudes anti-machistas e anti-racistas.
Não durou muito para a contradição começar a surgir. Novos movimentos de auto-afirmação masculina começaram aos poucos pipocar na internet com uma nova roupagem. Não se tratava mais de mobilização em defesa de grupos de homens que se revoltavam e lutavam contra a estrutura patriarcal dominante de práticas opressoras em prol de grupos vulneráveis e da reconstrução de uma nova masculinidade não tóxica. Tratava-se agora justamente dos mesmos homens que até então eram o estrato mais privilegiado da estrutura social e que agora se revoltavam contra as pressões para deixarem de ser as pessoas narcisistas, violentas e canalhas que sempre foram estimulados a se tornar. Na análise social essa reivindicação tem nome bem comum, reacionarismo. Um movimento reacionário é aquele que busca a reconstrução de uma ordem já em processo de desconstrução em decorrência da atuação de movimentos sociais contra-hegemônicos, reformistas ou revolucionários. E aqui chegamos, ao mundo em que termos como macho alpha e sigma se tornam forma de homens que querem se reafirmar diante de conquistas mínimas e necessárias de grupos oprimidos e vulneráveis.
Em certa ocasião, comentei com alunos da universidade como meninos héteros estavam visivelmente apáticos, desempenhando atividades acadêmicas de modo indiferente. Não davam sinais de posicionamento em grupos coletivos, nem se tornavam líderes de espaços coletivos de mobilização social. Por um lado, a situação representa fenômeno positivo, de pluralização dos indivíduos e grupos que se destacam no espaço público. Por outro, os sinais podem mostrar os desafios que meninos e homens de hoje têm de se engajar publicamente de forma distinta (felizmente!) da qual o padrão de masculinidade sempre recomendou. Assim, muitos entram em um quadro de apatia ou abobadisse generalizada, ignorando o problema e se protegendo na afetividade dos grupinhos de quinta série (em que piadas e brincadeiras infantis são a única pauta). Mas a sociedade não se move a partir do grupinho da quinta série, esses mesmos homens um dia buscarão dar sentido mais contundente para o seu recalque, elaborando ou reforçando-o. E é isso justamente o que temos visto com o surgimento de movimentos como o Red Pill, e a busca por reafirmação da maculinidade alpha e sigma.
Homens alpha e sigma concordam no atacado, mas discordam no varejo. No núcleo, são alternativas reacionárias à necessária e tardia redução de privilégios do homem branco, hétero e abastado. Para essa redução, que na generalidade não significa que homens se tornaram os oprimidos da vez, a reposta seria apostar na mesma tática dos revolucionários (como é de praxe no caso de movimentos contra-revolucionários). Ou seja, trata-se agora de adotar discurso identitário e de reafirmação de seus valores. Esquecem, contudo, a diferença de que não se trata de identidades constituídas historicamente pela opressão e que, portanto, têm sentido totalmente artificial e conjuntural. Não lutam por terem sido escravizados, explorados, torturados, discriminados, violentados e oprimidos de todas as formas possíveis. Pelo contrário, sempre foram os agentes privilegiados dessa estrutura histórica e raramente representam homens que estavam nas fileiras dos de baixo. Se vitimizam, repito, por não saberem viver em uma sociedade em que sua posição hegemônica esteja em contestação.
Mas alphas e sigmas têm lá as suas diferenças, características de duas respostas distintas da linha reacionária. A primeira (como sempre quer ser a alpha), vai na linha do macho man. Constrói argumento na linha do evolucionismo maltusiano, isto é, homens não precisam deixar de serem os babacas que sempre foram, pois esse é o seu desígnio natural. Serem fortes, dominadores, conquistadores, promíscuos, atléticos, belos e independentes é o seu destino – nada muito diferente do que o nazismo já propunha ao organizar sua máquina de eugenia. Ou seja, o homem hétero, branco e cervejeiro reassume as rédeas do controle e domínio da sociedade, impondo sua vontade novamente sobre os demais. E ai de quem denunciar seus equívocos e imperfeições ou ameaçar o seu posto no topo do pódio. Para ele, nada é pior do que ser acusado de macho beta.
Embora mais implícita, a proposta dos sigma é tão reacionária quanto a primeira. Transforma a reconstrução da força da masculinidade original em uma arrogância isolacionista que evita debater ou conviver com os demais grupos marginalizados que finalmente começam a ocupar seus espaços. Ao invés de quererem impor sua força, decidem se isolar, não dialogar e viver uma vida independente e estéril, repleta de um suposto requinte e racionalidade utópica que nenhum outro grupo seria capaz de alcançar. Se o movimento alpha transparece muito do nazismo, o sigma parece uma releitura da hipocrisia colonialista imperial de fins do século XIX que se embreagava do luxo da Belle Époque pago pela riqueza, trabalho e vida das populações coloniais, contra as quais testavam práticas de segregação e violência que o totalitarismo traria para o coração da Europa.
Entendido. Mas o que podemos fazer sobre isso? Penso que nos cabem pelo menos dois caminhos complementares. O primeiro consiste em denunciar as características reacionárias e opressoras do revisionismo seletivo desses grupos. Com os jovens que se sentirem desconfortáveis com o fato de estarem promovendo doutrinas de traços colonialistas e nazistas, cabe dialogar e debater as razões práticas pelas quais se afinizam com essas identidades. Muitas vezes a própria pressão da masculinidade hegemônica e a necessidade de aceitação paternal, familiar e social é o motor do recrutamento. É importante que percebam o quão patético é assumir uma luta identitária com justificativa totalmente artificial e em defesa da manutenção de uma posição privilegiada, portanto, injusta. A homens que querem mudar e assumir identidade que altere o significado da masculinidade no século XXI, resta apenas a luta contra o machismo e não a sua reafirmação como resposta à (necessária) perda de privilégios em um ou outro aspecto da vida social.
O segundo caminho de ação se direciona aos homens adultos que defendem de forma convicta a superioridade masculina, a despeito da opressão que historicamente gera a grupos subalternos. Nesse caso, a contradição direta é a única solução. A cultura anti-machista deve ser defendida e fortalecida no dia a dia, e o primeiro passo é a auto-crítica. Homens sobretudo devem se perceber como machistas de partida e não tentarem se esconder em uma máscara de perfeito ou, ainda pior, de real oprimido. O machismo é a nossa realidade estrutural, que reproduzimos intencional ou não intencionalmente. Para rompê-lo temos que agir em âmbito sistêmico e individual. Sistêmico, lutando por projetos políticos e institucionais inclusivos, que proponham e assegurem ampla representatividade de ideias e valores, combatendo o exclusivismo do seu próprio grupo. Individualmente, temos que combater em nós mesmos e nos nossos círculos atitudes machistas incontestadas, tais como, a exaltação à infidelidade; a competição por poder e espaço; o direito de fala a qualquer tempo; a interrupção e arrogância; a auto-idolatria; a hiperssexualização e subracionalização da mulher; as atitudes violentas e assediadoras; e a naturalização e reivindicação da virilidade masculina a todo tempo e custo. E isso não deve ocorrer apenas publicamente, mas principalmente nos grupos exclusivos de homens, onde os ditos feministas manifestam seu machismo reprimido. Isto não quer dizer recalcar a sexualidade, no caso dos homens héteros, mas buscar limitá-la ao universo a que lhe compete, o sexo. Em outros ambientes e contextos, a sexualização infundada e não consentida da mulher é sim representativa do machismo.
Se quiser ser um homem com uma causa, entre tantas opções justas e dignas, assuma para si mesmo a resposabilidade do anti-machismo. Esta, sim, é uma boa causa para os homens pós-machos do nosso tempo.





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